Opinião: Caso de Realengo mostra que alguns alunos precisam de ajuda

Fonte: Ana Cássia Maturano Especial para o G1, em São Paulo

 

É necessário desmistificar que os mais agitados são os que têm problemas. Crianças tímidas e com dificuldade de se relacionar merecem atenção.

Falar da tragédia de Realengo não é nada original. Muito se tem comentado sobre o assunto, exaustivamente. Televisão, internet, jornais impressos... Especialistas em segurança, psicólogos e psiquiatras são chamados para tentarem dar uma luz ao que aconteceu.

Essa necessidade de estarmos a toda hora falando e lembrando dos fatos é uma forma de tentar compreender acontecimento tão chocante. O que costuma ocorrer quando se perde alguém – fala-se muito daquele que partiu como um modo de lidar com sua ausência. E, assim, o luto vai sendo elaborado.

Dessa maneira, busca-se dar um sentido ao que foge a qualquer compreensão. Principalmente ao pensarmos em tamanha violência contra crianças, partindo de uma pessoa que não demonstrava, a princípio, comportamentos com essa característica: Wellington Menezes de Oliveira, o atirador, era uma pessoa bastante retraída e costumava ser vítima de atos agressivos dos colegas.

Com uma história envolvendo adoção e uma mãe biológica com histórico de esquizofrenia, passando por vítima de bullying, há muitos fatores que contribuem para a ocorrência de um transtorno mental. Esse, por si só, não justifica tamanha atrocidade. Porém, pode nos alertar para o olhar que estamos tendo para com nossas crianças, seja no contexto escolar ou não.

Há uma preocupação grande nas escolas com aqueles alunos que transgridem as regras e deixam explícito um comportamento mais agressivo. Para esses, os pais são sempre chamados e profissionais da saúde mental são sugeridos. Crianças assim estão gritando que as coisas não vão bem. Por isso, são vistas e às vezes cuidadas.

Penso que essas têm possibilidade grande de ir em frente em seu desenvolvimento. Mesmo que seja de uma forma atrapalhada, estão clamando por ajuda, lutando, mostrando ao mundo seu desconforto.

Nem todas têm essa possibilidade. Algumas crianças cujo comportamento é bastante retraído, não costumam preocupar os professores – não agitam as aulas ou se indispõem com colegas. Às vezes, nem os têm. Elas vão além de serem tímidas: a dificuldade de se relacionarem socialmente, levam-nas a se isolarem em seu mundo – voltam-se para dentro de si.

Uma das professoras de Wellington, Conceição de Souza, diz o seguinte dele: “Não tinha participação com a turma, era mais fechado, mas não dava nenhum problema, não apresentava agressividade”. Mas a tinha. Esse tipo de visão da escola é muito comum. Assim como é comum o psicólogo ser surpreendido com a incompreensão da professora sobre estar atendendo algum aluno que não dá trabalho. No entanto, quando a professora pensa sobre ele, passa a perceber algumas coisas que realmente parecem fora de lugar. Como, por exemplo, dificuldade de estar com outras crianças, incomodando-se com elas.

A timidez em si não é um problema. Às vezes é sábio ir com calma em ambientes sociais, por exemplo: permitir que a pessoa o conheça de antemão. O que é diferente de estar isolado e nunca se relacionar. Assim como não participar das aulas falando deve ser um problema – muitos não se sentem à vontade em falar em público.

Há alunos que não causam confusão no ambiente escolar e por vezes são os que mais necessitam de ajuda emocional. É necessário desmistificar de que os mais agitados são os que têm problemas. Esses se distanciam do comportamento esperado e incomodam. E clamam por ajuda.

Os outros precisam muito mais de ajuda, inclusive para que digam por eles que as coisas não vão bem. Eles não têm voz. A escola é o lugar privilegiado para que essas coisas sejam percebidas.

(Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga)